Dívidas consomem 29% da renda das famílias e freiam economia brasileira
Quase 30% da renda das famílias brasileiras já está comprometida com o pagamento de dívidas — e o dado é do Banco Central. O comprometimento chegou a 29,3% em janeiro de 2026, com quase metade da população endividada (49,7%). Para quem tem cartão de crédito ou consignado, a conta aparece diretamente no orçamento mensal.
O crédito cresce, mas de forma desigual: a taxa média para pessoas físicas chegou a 62% ao ano — contra 24,9% para empresas. O governo absorve grande parte dos recursos disponíveis emitindo títulos públicos, encarecendo o crédito para todos os demais.
O governo estuda limitar os juros do cartão de crédito, mas especialistas alertam que a medida pode acabar com o parcelamento sem juros — que hoje é financiado, indiretamente, pelos juros do rotativo. A solução mais eficaz, segundo economistas, passa por reformas estruturais: queda da Selic e redução da concentração bancária.
Quase 30% da renda das famílias brasileiras já vai direto para o pagamento de dívidas — e o quadro vem piorando há anos. O comprometimento de renda chegou a 29,3% em janeiro de 2026, segundo o Banco Central, enquanto quase metade da população (49,7%) está endividada. Nos últimos dez anos, o endividamento cresceu 30,9%.
O impacto não é só doméstico. Como o consumo das famílias é o principal motor da economia brasileira, esse nível de endividamento funciona como freio direto ao crescimento do PIB: menos renda disponível, menos gasto, menos atividade econômica.
A raiz do problema está em uma assimetria estrutural. O governo brasileiro emite títulos públicos atrativos, absorvendo grande parte do dinheiro disponível no sistema financeiro — o chamado efeito de deslocamento, ou crowding out. Sobra menos crédito para as famílias, e o que sobra é mais caro: a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 62% ao ano em fevereiro de 2026, quase o triplo do cobrado das empresas (24,9%).
O crédito total cresceu — atingiu R$ 21 trilhões —, mas de forma desigual. As modalidades mais utilizadas pelas famílias foram o consignado privado (alta de 247,7% em 12 meses) e o cartão de crédito (+11,8%). No cartão, o rotativo — que permite rolar a fatura a juros altos — subiu 9,3%.
O governo discute limitar os juros do cartão de crédito, mas analistas do Morgan Stanley alertam para o risco: o parcelamento sem juros, amplamente usado pelos brasileiros, é sustentado pelos juros pagos por quem cai no rotativo. Um teto forçado poderia levar os bancos a acabar com o parcelamento sem juros, prejudicando diretamente o consumidor.
Para o pesquisador Flávio Ataliba Barreto, do FGV IBRE, a solução exige reformas estruturais: redução da Selic, menor concentração bancária e menos participação do governo como tomador de crédito no mercado. Sem mudar essa arquitetura, medidas pontuais não resolvem o problema.
O endividamento das famílias brasileiras chegou a um ponto de estrangulamento: 29,3% da renda já vai diretamente para o pagamento de dívidas — e o quadro não é novo, mas se aprofundou. Nos últimos dez anos, o endividamento das famílias (excluindo financiamento imobiliário) cresceu 30,9%. Quase metade da população — 49,7% dos brasileiros — está endividada no início de 2026, segundo dados do Banco Central.
O problema vai além do bolso individual. Como o consumo das famílias representa a maior fatia da demanda interna brasileira, esse nível de comprometimento de renda funciona como um freio direto ao crescimento do PIB. Menos renda disponível significa menos gasto, menos produção, menos emprego.
Para Flávio Ataliba Barreto, pesquisador associado do FGV IBRE, o cenário é de "alerta extremo". "Imaginar que quase 30% dessa renda, que já é pouca, está comprometida com dívida é algo extremamente elevado, porque se trata, basicamente, de despesas essenciais", afirma.
O que explica esse quadro? Uma assimetria estrutural no mercado de crédito brasileiro. Governo e grandes empresas conseguem se financiar de forma mais barata — o governo emite títulos públicos altamente atrativos, absorvendo grande parte do dinheiro disponível no mercado. Esse mecanismo, conhecido como crowding out (efeito de deslocamento), deixa menos recursos nos bancos para emprestar à população comum. O resultado aparece nos números: em fevereiro de 2026, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 62% ao ano — contra 24,9% para empresas.
O crédito total na economia até cresceu: o chamado "crédito ampliado" atingiu R$ 21 trilhões (163,7% do PIB), puxado por títulos públicos (+17,2%) e privados (+18,5%). Mas esse crescimento chega de forma desigual. Quem mais recorreu ao crédito foram trabalhadores com consignado privado — modalidade que saltou 247,7% em 12 meses — e usuários de cartão de crédito (+11,8%). No cartão, as compras parceladas avançaram 21% e o rotativo — aquele que permite rolar a fatura a juros altos — subiu 9,3%.
O consignado carrega uma armadilha silenciosa: ao ver o desconto direto em folha, o trabalhador subestima o impacto no salário líquido e acaba recorrendo a novas dívidas para cobrir o mês. Já no rotativo do cartão, a dívida se multiplica rapidamente.
O governo federal tem pressionado a equipe econômica por alternativas e uma das propostas em discussão é limitar as taxas de juros do cartão de crédito. Analistas do Morgan Stanley, porém, alertam para um efeito colateral: entre 75% e 80% dos saldos de cartão no Brasil não geram juros para os emissores — justamente porque a maioria das compras é parcelada sem juros. Quem financia esse sistema é a minoria que cai no rotativo, pagando taxas altas. Se o governo forçar um teto para o rotativo, os bancos podem simplesmente acabar com o parcelamento sem juros — o que prejudicaria consumidores e derrubaria o volume de vendas no varejo.
Para Ataliba, a solução exige reformas mais profundas: redução contínua da Selic, menor concentração bancária e, principalmente, redução do papel do governo como o maior tomador de crédito do mercado. Sem mexer nessa arquitetura, intervir no cartão de crédito não ataca a raiz do problema.