A Hungria vota neste domingo na eleição mais disputada dos últimos 16 anos. Viktor Orbán, primeiro-ministro desde 2010 e símbolo da direita nacionalista europeia, enfrenta o desafio mais sério de sua trajetória política. Do outro lado, Péter Magyar, líder do partido Tisza, aparece com 50% das intenções de voto contra 39% do Fidesz, legenda de Orbán, segundo o agregador de pesquisas do Politico.
A vantagem de 11 pontos percentuais, porém, não garante uma vitória tranquila. O sistema eleitoral húngaro — desenhado pelo próprio Orbán em 2011 — favorece o partido com mais votos de forma desproporcional em relação ao resultado popular. Para que Magyar conquiste maioria confortável no parlamento, precisa vencer por pelo menos 10 pontos. O cenário está em aberto.
Magyar, 45 anos, fundou o Tisza em 2024 após deixar o Fidesz. Sua campanha aposta no desgaste do governo: a promessa central é restaurar a estabilidade econômica e de serviços públicos sem abandonar o campo da direita — mas com menos centralização e mais proximidade com a União Europeia. Ele defende a entrada da Hungria na zona do Euro e o combate à corrupção governamental.
A insatisfação dos húngaros tem razões concretas. Só em 2025, a inflação chegou a 4,4%, com alta de 5,3% nos alimentos, 6,4% em energia e combustíveis e 6,7% em serviços. A estagnação econômica é agravada pelo congelamento de cerca de 22 bilhões de euros da União Europeia destinados à Hungria — bloqueados desde dezembro de 2022 por descumprimento de condições relacionadas ao Estado de direito, à independência do judiciário e à liberdade de imprensa.
Orbán, 62 anos, ocupa o cargo desde 2010 de forma ininterrupta — e também governou entre 1998 e 2002. Sua marca registrada é um estilo ultraconservador: mudança constitucional que reduziu o parlamento de 386 para 199 congressistas, controle dos veículos de mídia, oposição à imigração e a direitos LGBTQIA+. No cenário externo, é aliado próximo de Donald Trump e mantém laços com Vladimir Putin. Em fevereiro deste ano, vetou um empréstimo de cerca de US$ 90 bilhões da Europa para a Ucrânia.
Na campanha atual, Orbán se posiciona como o único líder capaz de evitar que a Hungria seja arrastada para a guerra na Ucrânia pela União Europeia — argumento que ainda tem apelo em parte do eleitorado.
Magyar também é contrário ao envio de armas à Ucrânia, mas sinaliza maior flexibilidade em relação a medidas financeiras propostas no parlamento da UE. Sua postura pró-europeia o diferencia do atual governo, que acumula anos de atrito com Bruxelas.
O parlamento húngaro é unicameral, com 199 deputados. Desses, 106 são eleitos diretamente por distrito e 93 por lista fechada de partido — sistema que distribui as cadeiras de forma não proporcional. Partidos com menos de 5% dos votos não entram no parlamento.
A coalizão Fidesz-KDNP detém hoje 135 das 199 cadeiras. Mesmo que Magyar vença com os 11 pontos que as pesquisas indicam, analistas avaliam que a conversão em assentos parlamentares pode não ser suficiente para uma maioria absoluta confortável.
"O sistema eleitoral húngaro não é proporcional. Os números das pesquisas não se traduzem diretamente nas proporções de assentos. Há um forte componente majoritário que favorece o partido mais forte", explicou Zsuzsanna Végh, coordenadora de programas no think tank German Marshall Fund.
A votação define não apenas um governo, mas a direção da Hungria na União Europeia — e o peso do país nas decisões do bloco sobre Ucrânia, Rússia e direitos fundamentais.