Falha estrutural do FGC cria incentivo para novos banqueiros de alto risco
A crise do Banco Master expôs uma falha estrutural no sistema financeiro brasileiro: o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), ao garantir 100% do valor investido até R$ 250 mil, elimina o incentivo do investidor de avaliar o risco do banco onde aplica — e abre espaço para banqueiros agressivos captarem recursos a taxas elevadas para fazer apostas cada vez mais arriscadas.
É a tese do consultor financeiro Michael Viriato, que resume o problema em uma lógica simples: se o investidor sabe que será ressarcido de qualquer forma, ele busca apenas a maior taxa. E o banqueiro que oferece essa taxa precisa assumir riscos crescentes para honrar o retorno prometido. Quando o ciclo se rompe, a conta fica com o sistema.
O rombo gerado pela quebra do Master, Will Bank, Pleno e Reag — todos ligados a Vorcaro — é estimado em R$ 51 bilhões, o maior desembolso da história do FGC desde sua criação em 1995. Entre 70% e 80% desse valor será pago pelos cinco maiores bancos do país.
Para Viriato, o problema não está no regulador nem na existência do fundo, mas no desenho da regulação. "O sistema não previne o surgimento de novos aventureiros. Ele incentiva", afirmou. Mudanças no FGC estão sendo discutidas, mas ainda sem propostas formais.
A crise do Banco Master, que gerou um rombo estimado de R$ 51 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), trouxe à tona uma questão mais profunda do que a conduta de Daniel Vorcaro: o próprio desenho do sistema de proteção ao investidor brasileiro cria incentivos para que crises como essa se repitam.
É o que defende Michael Viriato, consultor financeiro com 27 anos de mercado e professor em instituições como FGV, Insper e USP. Para ele, o problema não está na existência do FGC — essencial para evitar corridas bancárias e proteger pequenos investidores —, mas nos efeitos colaterais da garantia de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
O mecanismo cria dois incentivos distorcidos ao mesmo tempo. Para o investidor, elimina a necessidade de avaliar a solidez do banco emissor: como o dinheiro está protegido, basta buscar a maior taxa disponível. Para o banqueiro agressivo, abre uma janela: captando recursos a taxas elevadas de investidores despreocupados com risco, ele pode apostar em ativos cada vez mais arriscados. Se der certo, embolsa o lucro. Se der errado, o FGC paga.
O próprio Vorcaro descreveu o modelo com clareza em depoimento à Polícia Federal: "O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo."
Um dado revela a assimetria do sistema: entre 70% e 80% dos recursos do FGC vêm dos cinco maiores bancos do Brasil. São eles que bancam, proporcionalmente, a conta das quebras de instituições menores e mais arriscadas.
Para Viriato, a quebra do Master pode ser o gatilho para mudanças. Os grandes bancos, até então indiferentes às quebras pontuais de instituições menores, perceberam que o modelo pode escalar. "Quando você é chamado para pagar a conta, você vai pedir para mudar o sistema. Os grandes bancos já estão se mexendo", afirmou.
As mudanças defendidas pelo especialista incluem reduzir a cobertura integral ao investidor — para que ele assuma parte do risco — e aumentar o prêmio pago por bancos que captam com taxas acima da média. Nenhuma alteração foi formalizada ainda.
Quanto aos dois servidores do Banco Central afastados por suspeita de receber pagamentos indevidos de Vorcaro, Viriato separou os casos da instituição: "O Banco Central continua sólido. Não podemos dizer que toda a instituição é ruim por conta de uma ou duas pessoas."
A crise do Banco Master não foi apenas um escândalo de gestão irresponsável. Para o professor e consultor financeiro Michael Viriato, com 27 anos de mercado e passagens pela FGV, Insper e USP, o caso expõe uma falha de design no coração do sistema financeiro brasileiro — o Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O FGC é uma associação privada mantida pelos próprios bancos que funciona como um seguro para investidores: em caso de quebra de uma instituição financeira, ele garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por grupo econômico. O mecanismo existe desde 1995 e cumpriu papel fundamental nos últimos meses: evitou uma corrida bancária após a liquidação do Master, do Will Bank e do Pleno — além da gestora Reag — todos ligados direta ou indiretamente a Daniel Vorcaro, preso pela segunda vez nesta semana. O rombo estimado para o fundo é de R$ 51 bilhões, o maior desde a criação do mecanismo.
O problema, segundo Viriato, não é a existência do FGC. É o incentivo perverso que o seu desenho atual cria para dois grupos distintos.
Do lado do investidor, a garantia de ressarcimento integral — dentro do limite de R$ 250 mil — elimina o incentivo de avaliar a solidez do banco onde se aplica. O resultado prático é que o investidor passa a buscar apenas a maior taxa de retorno disponível, independentemente do risco da instituição emissora. "O investidor percebe que, se o banco der certo, ele ganha uma taxa maior, mas se o banco quebrar, o FGC devolve o dinheiro. Isso cria um incentivo claro para escolher sempre a maior taxa disponível", disse Viriato à BBC News Brasil.
Do lado das instituições, o mesmo mecanismo abre espaço para banqueiros dispostos a estratégias mais agressivas. Para captar recursos com taxas acima do mercado — atraentes para investidores não preocupados com risco —, esses banqueiros precisam fazer apostas cada vez mais arriscadas com o dinheiro captado. Quando o ciclo se rompe, a conta fica com o sistema como um todo.
O próprio Vorcaro reconheceu o modelo em depoimento à Polícia Federal: "O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo", afirmou.
Para Viriato, a distribuição ampliada de produtos financeiros via plataformas como XP, Genial e BTG acelerou o problema nas últimas décadas. Hoje, qualquer banco médio consegue captar recursos em escala nacional simplesmente oferecendo taxas mais altas. No passado, essa capilaridade de distribuição não existia, o que limitava naturalmente o alcance de instituições menores e mais arriscadas.
Outro dado relevante: entre 70% e 80% dos recursos do FGC são contribuídos pelos cinco maiores bancos do Brasil. São eles que pagam proporcionalmente mais em casos de quebra de instituições menores, o que cria uma assimetria estrutural — os conservadores bancam os aventureiros.
A quebra do Master e das instituições que vieram na sequência acendeu um sinal de alerta justamente para os grandes bancos. Segundo Viriato, esse pode ser o catalisador de mudanças que antes não avançavam. "Quando você é chamado para pagar a conta, você vai pedir para mudar o sistema. Os grandes bancos já estão se mexendo", afirmou.
Entre as mudanças que o especialista defende estão a redução do percentual de cobertura garantido ao investidor — para que ele assuma parte do risco da escolha — e o aumento proporcional do prêmio pago por bancos que captam recursos com taxas acima da média, encarecendo a estratégia agressiva. Nenhuma dessas mudanças está formalizada ainda.
Sobre o envolvimento de dois servidores do Banco Central na crise — afastados após investigação interna que identificou pagamentos indevidos em troca de orientações estratégicas a Vorcaro —, Viriato fez questão de separar os indivíduos da instituição. "O Banco Central continua sólido, conta com excelentes profissionais e tomou excelentes decisões. Mas, como em qualquer outra instituição, sempre vai haver alguém que não segue os princípios da instituição", disse. Para o especialista, o problema central não está no regulador, mas na regulação. "Não adianta você ter um bom juiz com uma lei ruim."
A questão que fica no centro do debate é estrutural: enquanto o sistema continuar garantindo 100% do investimento de quem aplica em bancos de alto risco, o incentivo para o surgimento de novos entrantes agressivos permanece intacto. "O sistema não previne. Ele incentiva que surja", concluiu Viriato.